Por Arthur Virgílio*
Na semana da primeira eleição de Lula, em 2002, o real bateu sua menor cotação frente ao dólar: US1 = R$3,95. Daí em diante, a moeda só se valorizou, registrando pequeno recuo em meados de 2004 (época do mensalão) e ao longo do último trimestre de 2008, no rastro da crise mundial.
Até antes da crise de 2008, quando o real experimentava constante valorização, os empresários não davam sinais de desespero, porque o mundo crescia e as commodities viviam preços esplendorosos. Logo que a crise se estabeleceu, porém, empurrando para baixo os preços das commodities, as moedas em geral se desvalorizaram fortemente face ao dólar, bancos quebraram, parecia o fim do mundo.
A recuperação foi rápida. Os bancos centrais mundiais agiram com presteza, despejando liquidez no sistema financeiro, e o panorama começou a mudar para melhor. Mas foi melhora desigual. Depois de quase quatro anos de turbulências, alguns ativos retornaram aos patamares de 2008, como as bolsas americanas, a Bovespa chegando perto disso, claro que em termos nominais, isto é, sem considerar a inflação do período.
Já os preços das commodities, setor vital para o Brasil, medido pelo índice Reuters/JeffereisCRB, utilizado pelo sistema financeiro e composto por 19 produtos cotados nas bolsas de Nova Iorque e Chicago, que tinha atingido a máxima no início de julho de 2008 (474 pontos), atualmente ainda se encontra na casa dos 300 pontos. Mesmo com a recuperação do preço do petróleo, que representa 30% do total do índice.
O real vinha sendo um aliado do governo. Desde janeiro de 2003, conheceu valorização de 92,6%. Quando a moeda se valoriza, a sensação de riqueza das famílias aumenta, a inflação fica mais contida (os produtos importados chegam mais baratos ao país), as pessoas viajam para o exterior, os empresários importam máquinas novas e matérias primas a preços baixos.
Isso, no entanto, deveria vir acompanhado de atitudes governamentais. O Brasil atravessou a bonança sem aproveitá-la. Não prosseguiu com as reformas que Fernando Henrique havia iniciado, não investiu na modernização da infraestrutura, não cuidou de educação, saúde e segurança, aceitou conviver, passivamente, com a intolerável carga tributária que nos asfixia o futuro.
Agora que os preços das commodities pararam de subir, a inflação voltou a incomodar e todos sabemos que taxas acima de 5% por período prolongado tornam qualquer economia mais insegura. O governo erra, faz populismo. A conta agora se apresenta para ser paga.
O “pacote” anunciado por Dilma e Mantega é tímido, paliativo, atrasado (protecionista, revive as nocivas reservas de mercado), aumenta a carga tributária e privilegia alguns setores econômicos (pródigos em financiar campanhas eleitorais), em detrimento da sociedade.
A economia brasileira não vai bem.
*Diplomata, foi líder do PSDB no Senado